Irma de Godoy se despede da gestão do HC de Botucatu

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A gestora, que dividia as responsabilidades da administração do Hospital com superintendente, Dr. Emílo Carlos Curcelli, retomará suas atividades como docente e pesquisadora.

A médica pneumologista e professora da Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp (FMB) Dra. Irma de Godoy, deixou, no início do mês de setembro, o cargo de chefe de Gabinete do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB). A gestora, que dividia as responsabilidades da administração do Hospital com superintendente, Dr. Emílo Carlos Curcelli, retomará suas atividades como docente e pesquisadora.

A chefia de Gabinete integra a administração direta superior do HCFMB, coordenando os trabalhos na Superintendência. Entre as suas principais atribuições e competências estão: exercer a direção geral, orientar, coordenar e fiscalizar os trabalhos de órgãos que lhe são diretamente subordinados, além de estabelecer diretrizes para a atuação do Gabinete da Autarquia.

Em entrevista à Assessoria de Comunicação, Imprensa e Marketing do HCFMB, a médica, que é defensora da necessidade de haver alternância de poder principalmente em órgãos públicos, argumenta que pretende dar a oportunidade para que outros profissionais se desenvolvam na área administrativa. A especialista, que foi coordenadora da Comissão de Tabagismo e membro do Conselho Fiscal da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia, falou sobre os desafios que enfrentou durante sua gestão à frente do Hospital das Clínicas e das contribuições que deixa para a Instituição.

ACIM – Em sua opinião, quais foram suas principais contribuições para o desenvolvimento do HCFMB nos últimos anos?

Irma de Godoy – Penso que tenha sido a coordenação da informatização do Hospital. Não enxergo o HCFMB sem passar por esse processo. O sistema que foi implantado trouxe uma integração importante. Teríamos muito mais dificuldades para consolidar a atual interligação entre os serviços de saúde de Botucatu, sob gestão do Hospital, sem o prontuário eletrônico. Em qualquer unidade as equipes conseguem ter as informações sobre os pacientes. Hoje, a possibilidade de crescimento da instituição extramuros é muito maior.

ACIM – Houve resistência no começo, certo?

Irma de Godoy – Sim, muita. De vários representantes da nossa comunidade.

Lembro-me que a empresa queria fazer a mudança gradativa para o novo sistema e eu sempre defendi que isso deveria ser feito de uma só vez. Foi feito assim e nos primeiros dias houve uma instabilidade muito grande. Houve muita pressão para que eu voltasse atrás na minha decisão, mas não fiz isso. Com o tempo, as coisas foram se acertando.

ACIM – A senhora participou de outro momento histórico para o HCFMB que foi a autarquização. Como foi fazer parte desse processo?

Irma de Godoy – Não participei do planejamento dela, mas sim da sua implantação. Foi muito difícil, mas não vejo o Hospital hoje sem ela. Não teríamos sobrevivido.

Está sendo um processo de muitas dificuldades, mas trouxe o HCFMB para um novo nível, inclusive no que diz respeito à infraestrutura, equipamentos, etc. Foi decisiva nesse processo a história que o Emílio tinha como gestor do Hospital Estadual de Bauru. Começamos com um orçamento muito pequeno, mas hoje conseguimos fazer muita coisa que não conseguíamos naquela época. A autarquização trouxe e ainda vai trazer muitos benefícios.

ACIM – Estamos no meio do caminho, então?

Irma de Godoy – Nós crescemos muito, mas não crescemos tudo de uma só vez. Precisamos ter mais funcionários da Secretaria de Estado da Saúde trabalhando no Hospital, pois ainda temos muitos trabalhadores contratados pela Famesp e Unesp. Temos que substituí-los gradativamente.

ACIM – A senhora acha que a autarquização deixou a impressão de uma cisão entre a Faculdade de Medicina e o HCFMB?

Irma de Godoy – Esse é mais um mito do que um fato. O presidente do Conselho do Hospital é o diretor da Faculdade de Medicina e o superintendente do Hospital é professor da Faculdade de Medicina. O que houve é que a Universidade tem algumas regras e a Secretaria de Estado da Saúde tem outras. Isso foi entendido pela comunidade como uma cisão. No entanto, foi uma oportunidade de as instituições crescerem juntas. Hoje, isso é menos acentuado. É possível ganhar muito com esse novo cenário.

ACIM – E a relação com a Famesp? Mudou, na sua opinião?

Irma de Godoy – A Famesp (Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospialar), antes, administrava os recursos do Hospital, tanto os que passavam pela Unesp, quanto os do SUS. Hoje, ela é interveniente junto ao HCFMB, mas não tem mais vínculo com a Universidade. Houve mudanças de processos, mas o relacionamento continua muito parecido. O Hospital, inclusive, conseguiu equilibrar suas contas administradas pela Famesp.

ACIM – A senhora acha que a estrutura hierarquizada da Saúde, existente em Botucatu, também é um fruto positivo da autarquização do HCFMB?

Irma de Godoy – Sinceramente, acho que sim. Ainda precisamos de mais recursos para utilizar melhor o Hospital Estadual de Botucatu. Mas ele, juntamente com o Pronto-Socorro Adulto, Pronto-Socorro Infantil e o Sarad (Serviço de Atendimento Referência Álcool e Drogas), são fundamentais para desafogar o HCFMB dos atendimentos secundários.

Teremos, em breve, o Ambulatório Médico de Especialidades (AME), que também vai desafogar a demanda do HCFMB. Existe, inclusive, um planejamento junto à Prefeitura para que seja implantado na cidade um sistema integrado entre as unidades de saúde e o HCFMB. Dessa forma, o paciente atendido em um determinado bairro teria suas informações disponíveis para toda a rede de saúde do Município.

ACIM – A administração da qual a senhora fez parte conquistou um grande respeito junto à Secretaria de Estado da Saúde. A que a senhora atribui essa credibilidade?

Irma de Godoy – O Emílio tem um trânsito muito bom na Secretaria. Fomos muitas vezes até lá com o pires na mão para pedir recursos, mas também fomos outras vezes com posições bem estabelecidas. Esse respeito que conquistamos se deve, também, ao fato de estarmos atravessando essa crise sem trazer grandes prejuízos ao HCFMB.

ACIM – Como foi sua relação com o Dr. Emílio Curcelli, atual superintendente do Hospital?

Irma de Godoy – O Emílio é meu amigo há muitos anos. Tive sorte de estar com o Emílio, que conhece administração hospitalar, é generoso nesse trato e sabe compartilhar. Ele me deu liberdade. Fui assumindo atribuições em áreas com as quais me identificava. Ele não tem medo que ninguém cresça, sabe que a instituição precisa progredir. Isso foi muito importante para o Hospital. Somos diferentes, porém complementares.

As mudanças que aconteceram no Hospital nos últimos anos foram fruto muito mais das nossas diferenças que das nossas similaridades. O Emílio tem uma visão abrangente da instituição, pensa em longo prazo e tem uma credibilidade grande junto à Secretaria de Estado da Saúde. Ele me levou em muitas reuniões, o que serviu como um grande aprendizado.

ACIM – Quais são seus planos a partir de agora?

Irma de Godoy – Ainda tenho mais alguns anos de atividades antes de me aposentar. Vou voltar a dar aulas na minha disciplina e, dentro das minhas atividades, vou me dedicar ao Laboratório do Sono, em parceria com a Otorrinolaringologia.

Tenho projetos financiados pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) nos quais oriento alguns alunos. Pretendo continuar me dedicando à pesquisa, que é uma área que gosto muito e também quero colaborar com o Departamento. Hoje, tenho um conhecimento da Instituição como um todo que me dá condições de contribuir de alguma forma.

Ao mesmo tempo, tenho uma atividade extramuros. Tenho um bom reconhecimento na Pneumologia Nacional e, a partir de 2016, assumirei a Diretoria de Ensino da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

Também devo trabalhar como assessora externa do Setor de Órteses e Próteses do HCFMB. É uma área muito sensível, que precisa de um olhar na organização de processos e prestação de contas. É preciso um controle rígido. Temos que ter processos que protejam a Instituição e o profissional que trabalha nesse setor.

ACIM – Que recado a senhora deixaria para seu sucessor?

Irma de Godoy – Trabalhar de forma transparente, sem medo de tomar decisões que possam parecer antipáticas em um primeiro momento. É preciso ter coragem de arriscar e pensar no futuro. É importante trabalhar para que o sistema tenha regras e normas.

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